Gente bonita em bairro nobre

Gente bonita em bairro nobre
por Pedro Perini-Santos & Beto Vianna
(jornal O Tempo, 12 de maio, 2012)

Reclamar das limitações impostas pelo policiamento linguístico virou o esporte preferido de alguns fazedores de opinião congenitamente mal-humorados. Como não queremos cercear a liberdade de ninguém de ofender os demais, vamos tratar de um assunto bem mais afirmativo, que é a linguagem do apreço, do enaltecimento.

As expressões que compõem o título deste artigo não foram expurgadas pelo politicamente correto. São termos corriqueiros que aparecem em anúncios publicitários, em matérias de divulgação de eventos e até no noticiário. Chamadas como “Megabalada na boate O Alpendre: só vem gente bonita” são ilustradas por fotos de pessoas jovens, brancas, bem-tratadas e com cabelos lisos. O recado é claro: bonito é quem é jovem, forte, branco e rico.

Em estilo semelhante, as imobiliárias e as colunas sociais categorizam os bairros mais ricos da zona sul da cidade como “bairros nobres”, ou seja, há bairros que acolhem moradores que são vistos e tidos como superiores aos demais habitantes da capital, pois, se há pessoas nobres, os demais, por extensão, são plebeus, certo? Compare esses termos com aquele outro, tão usado por nossos intelectuais sempre alertas ao bom uso da língua: “norma culta”. E quem não pratica a norma culta é, por extensão, o quê?

Não é necessário haver controle na entrada de eventos de gente bonita ou no acesso aos bairros nobres, selecionando quem pode e quem não pode participar dos ambientes especiais. A vivência diária o faz.

Por exemplo, para que negras e negros sejam plenamente aceitos, esses têm que ser ainda mais charmosos e ricos que a média dos usuários habituais dos setores vips da sociedade. Devem ser motivo de um sonoro “uau, que corpo!”, sendo esta frase a expressão prosódica do desejo por contato erótico, a ser relatado orgulhosa e sutilmente aos amigos e amigas e acompanhado por generosas doses de um especial 12 anos qualquer.

Quem está por cima acha ótimo continuar nesse lugar. Palavras como “esnobe”, supostamente críticas daqueles que têm ou mostram ter bala na agulha, têm origem na falta de paciência com a mobilidade social. Dizem as más línguas que vem da  abreviação inglesa “s.nob” (sem nobreza), título carimbado nos alunos de origem plebeia que receberam a graça de frequentar as sangueazuladas escolas britânicas.

O mesmo vale para o convívio nos bairros da elite, outra expressãozinha danada de complicada. Nesse caso, a linha de corte é o rendimento e a aparente sofisticação comportamental. Ali os restaurantes têm nomes italianos e franceses, com cardápios redigidos nessas línguas, generosamente evitando que consumidores plebeus, incapazes de pronunciar corretamente o contumaz pedido de um Pinot Noir, 95, com “bouquet épicée”, adentrem o recinto e paguem mico (para os outros).

É ótimo ter liberdade de escolha no uso da língua. Mas não custa nada abandonarmos as escolhas que ferem as outras pessoas. Isso, sim, é falar bonito.

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Sobre Pedro Perini-Santos

linguista.
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