Clovis, o opinólogo.

O Clóvis Rossi publicou, hoje, na Folha de São Paulo o seguinte texto:

Inguinorança

Não, leitor, o título acima não está errado, segundo os padrões educacionais agora adotados pelo mal chamado Ministério de Educação. Você deve ter visto que o MEC deu aval a um livro que se diz didático no qual se ensina que falar “os livro” pode.Não pode, não, está errado, é ignorância, pura ignorância, má formação educacional, preguiça do educador em corrigir erros. Afinal, é muito mais difícil ensinar o certo do que aceitar o errado com o qual o aluno chega à escola. Em tese, os professores são pagos -mal pagos, é verdade- para ensinar o certo. Mas, se aceitam o errado, como agora avaliza o MEC, o baixo salário está justificado. O professor perde a razão de reclamar porque não está cumprindo o seu papel, não está trabalhando direito e quem não trabalha direito não merece boa paga. Os autores do crime linguístico aprovado pelo MEC usam um argumento delinquencial para dar licença para o assassinato da língua: dizem que quem usa “os livro” precisa ficar atento porque “corre o risco de ser vítima de preconceito linguístico”.

Absurdo total. Não se trata de preconceito linguístico. Trata-se, pura e simplesmente, de respeitar normas que custaram anos de evolução para que as pessoas pudessem se comunicar de uma maneira que umas entendam perfeitamente as outras. Os autores do livro criminoso poderiam usar outro exemplo: “Posso matar um desafeto? Claro que pode. Mas fique atento porque, dependendo da situação, você corre o risco de ser vítima de preconceito jurídico”. Tal como matar alguém viola uma norma, matar o idioma viola outra. Condenar uma e outra violação está longe de ser preconceito. É um critério civilizatório. Que professores prefiram a preguiça ao ensino, já é péssimo. Que o MEC os premie, é crime.

Vou comentar umas coisas.

(1) ele já tá prontinho pra ir pra a VEJA: comentário reacionário, agressivo, de raciocínio abdutivo e errado.

(2) ele é um opinólogo: o rapaz fala de tudo – futebol, política, mundo, moda, sexo, vinhos e linguística – sobre esse último tema, o opinólogo não entende muita coisa

(3) ele não leu o livro sobre o qual comenta: nem eu; mas vejo realmente muito pouca chance que o livro proponha que “os livro” ou “os menino” sejam formas adequadas aa norma escolar

(4) ele é preconceituoso: existe muito preconceito linguístico no país; e isso traz muito sofrimento pra quem dele é vítima. A imprensa – toda (generalizo igual o opinólogo Rossi faz) –  atua de forma agressiva e preconceituosa quanto às variações.

(5) ele gera crias: esse texto do opinólogo gerará (e já gerou) reações aida mais agressivas contra as nossas particularidades linguísticas. Um infeliz belorizontino já publicou carta na Folha VEJA de São Paulo afirmando que isso aumentará a burrice brasileira. Bom, não se pode negar que os dois supracitados contribuem pra tal

(6) ele não é jornalista: é opinólogo. Pra se fazer uma matéria (ou escrever um comentário), espera-se que se consulte especialistas; nem que seja para escutar e citar opiniões divergentes. Detalhe: o livro não é publicado pelo MEC.

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Sobre Pedro Perini-Santos

linguista.
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6 respostas para Clovis, o opinólogo.

  1. Mercia disse:

    Adorei! Cada vez melhor…
    Ótimo texto!
    Agora não falo mais como leitora, mas como mãe: Se meu filho disser “os livro”, “os banco” POR FAVOR, não ignorem o seu erro, o ensinem a falar e a escrever corretamente. É também para ISSO que ele está na escola!!!

  2. Isso que me entristece. Caras pouco informados, que não conseguem sair do senso-comum falam com arrogância e sabedoria sobre o tema. Nós? Nós somos os cafajestes.

  3. “Trata-se, pura e simplesmente, de respeitar normas que custaram anos de evolução para que as pessoas pudessem se comunicar de uma maneira que umas entendam perfeitamente as outras”

    Será que eu li isso mesmo, ou o livro didático no qual eu estudei me emburreceu de vez?!?!?!

    Minha nossa!!!

  4. Elga disse:

    Oiê!!!

    Quase morri, vc soube? Sensação estranha, mas poderosa. Sinto que sou diferente da maioria que ainda não passou por essa experiência.

    Bobagens à parte, estava mesmo querendo saber o que vc pensava a respeito desse assunto. Ufa!! Bom saber que não estou mijando fora do pinico, nem sendo preconceituosa. Melhor saber que Marcos Bagno acha o mesmo… estou certa??

    Samia disse que , outro dia, vc enviou um artigo para eu ler. Não chegou no meu email. Ela disse que enviou. Não chegou. Penso que não precisamos de intermediários para tão ação, querido amigo. Para evitar maiores fadigas, envie para elgaarantes@gmail.com, pode ser?

    Vontade de bater papo com vc. Vc já sai? Senta em buteco e tals?

    Espero sua resposta, ansiosamente.

    Beijão!

  5. Elga disse:

    Só mais uma coisa. No Jornal Nacional, ou em outro qualquer, sei lá, vi a autora do livro sendo entrevistada e dando como exemplo “os livro”. É verdade…. ela disse ser permitido, sim.

  6. Belos comentários Pedro!
    E me assusta o sujeito se apresentar como bastião da língua sem admitir que ela evolui e é transformada pela fala. Daqui a pouco o sujeito vai pedir a volta do Vossa Mercê, porque o “você” é uma corruptela do falar de gente ignorante! Ah! Acho que ele também não conhece a semana de 1922. rsrsrsrs…
    Bjo e abç,

    Fidélis

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