Línguas seriamente ameaçadas (jornal O Tempo)

90% dos idiomas perto do fim
Postado em 11/04/2010
Mundo. Com a morte de Boa Sr, em fevereiro deste ano, morreu uma língua tribal de 65 mil anos. Ela era a última nativa falante do idioma aka-bo, das ilhas Andamão, território pertencente à Índia. Esse funeral não enterra apenas matéria, mas também uma das tradições mais antigas da Terra.
Até o final deste século, cerca de 90% dos cerca de 6.000 idiomas hoje falados no mundo desaparecerão, segundo previsão dos principais linguistas. Desse total, apenas 800 são estudados, de acordo com o professor da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas) Pedro Perini-Santos.
“Grande parte dessas mortes ocorre nas regiões mais pobres do mundo, como o continente africano, onde há menos programas de incentivo educacionais”, explica. A cada duas semanas, uma língua deixa de existir.
Vários são os fatores que matam línguas já agonizantes. Um dos mais óbvios é o baixo nível transmissional daquele idioma entre uma geração e outra, ou seja, uma língua morre quando ela deixa de ser falada por seus nativos.
Outro fator catalisador desse fenômeno natural é a imposição política do colonizador sobre o povo colonizado. Foi o que ocorreu, por exemplo, no Brasil, quando os portugueses proibiram os brasileiros, sob ameaça de armas, de falar o tupi.
A partir dessa nova disposição colonial, em que a população local começa a se casar com os que vêm de fora, a língua nativa perde força dentro do ambiente familiar para a cultura dominadora, já que o idioma do pai predomina sobre o da mãe por questões culturais. Se uma tradição não é reproduzida dentro da família, ela seguramente tende a desaparecer.
“As colônias conseguiram controlar o idioma, a escola, a pesquisa, toda a produção do conhecimento. É preciso promover uma série de ações para que elas circulem, como criação de ortografia, formação de professores, métodos de ensino, dicionários, gramáticas. Esse espaço só é alcançado com políticas de Estado”, defende o linguista Gilvan Müller de Oliveira, diretor do Instituto de Investigação e Desenvolvimento em Política Linguística (Ipol).
Com o desaparecimento de um patrimônio linguístico, a geração originária daqueles ex-falantes torna-se vulnerável a qualquer poder. “A cultura é uma plataforma de interação. Com a perda de suas tradições, esse povo vai viver de forma periférica. Ele perde sua unidade de cálculo político, de ação, que garantia sua defesa, sua organização social”, acrescenta Oliveira.
Cabe lembrar que, segundo os artigos 215 e 216 da Constituição brasileira, cabe ao Estado garantir o pleno exercício dos direitos culturais e apoiar e incentivar a valoração e a difusão das manifestações culturais. No Brasil, cerca de 220 idiomas (180 indígenas) são falados no país, sendo que 40 deles estão altamente ameaçados.
Segundo dados da Unesco, a principal razão para a extinção linguística é que boa parte desses idiomas agonizantes é falada por menos de 2.500 pessoas, quando são necessários, no mínimo, de acordo com a organização, 100 mil falantes para passar uma língua de geração em geração.
“Nunca ninguém deixará de falar uma língua. Não existe nenhum país que seja monolíngue. É preciso preservar a diversidade linguística”, finaliza Perini-Santos.
Relato sobre uma expedição
“Conheci, em São Gabriel da Cachoeira, o linguista Henri Ramirez. Ele nos contou que, dentro de dois dias, ele e dois índios baré fariam uma excursão até San Carlos, na Venezuela, em busca de um dos últimos falantes da língua baré”
“Apesar do fracasso da expedição, como diria Henri Ramirez, do ponto de vista linguístico e etnográfico (o falante conhecia algumas poucas palavras em baré), acreditava ter passado por uma grande experiência, pois havíamos percorrido boa parte do território onde tradicionalmente vivia e ainda vive o povo baré, um bom início de pesquisa”
Paulo Maia
Antropólogo, sobre expedição feita em setembro de 2004
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Depoimento
“No Brasil, falam-se brasileiro e mais duas centenas de outras línguas”
Existem algumas crenças a respeito da língua que a gente fala aqui no Brasil que, na minha opinião, merecem revisão. No Brasil, falam-se brasileiro e mais duas centenas de outras línguas; isso é bom, mas poderia ser melhor. Por que se fala brasileiro e mais duas centenas de línguas? Não existe, nunca existiu e nunca existirá um país que tenha apenas uma língua. Em toda e qualquer relação histórica de contatos entre povos, nações e culturas, ocorrem trocas linguísticas. Ou seja, uma das línguas oficiais do Brasil, chamada de Língua Portuguesa, não é uma língua portuguesa, porque o Brasil não é Portugal. O nosso jeito de falar, escrever, classificar as coisas, melodiar, grafar as palavras e construir as frases é específico da nossa cultura. Apesar de uma política explicitamente glotofágica e agressiva da então metrópole Portugal, a língua dita portuguesa chegou ao país através dos escravos que a tinham como 2ª ou 3ª língua. Em solo brasileiro, essa língua tem contato com centenas de línguas indígenas, com a fala de imigrantes de vários países, com dezenas de línguas africanas, com o árabe, com o hebraico e com um latim ritualístico incompreendido pelos páracos e pelos próprios padres. Dessa ´mistureba´, nasce a língua brasileira. Por que isso é bom? Porque todas as línguas do mundo passaram e passam por esse processo. Porque poderia ser melhor? Porque a maioria das nossas línguas indígenas, africanas, européias e asiáticas não são valorizadas e estudadas no Brasil. Como mecanismos identitários as línguas falam muito sobre a história dos povos. Quando morre uma língua, morre muita coisa junto.

O TEMPO

 

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Sobre Pedro Perini-Santos

linguista.
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Uma resposta para Línguas seriamente ameaçadas (jornal O Tempo)

  1. Fidélis disse:

    Muito bom Pedro!
    Impressionante como vc consegue passar de forma simples e direta tantas informações complexas. Deu vontade de saber mais sobre o assunto.
    abç
    Fidel

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