Capistrano de Abreu e o acordo ortográfico (texto em desenvolvimento)

Em dezembro de 1990, o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa foi assinado pelos seguintes países: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugual e São Tomé e Príncipe. Em setembro de 2008, aqui no Brasil, o decreto no. 6.583 determinou a vigência desse acordo a partir de janeiro de 2009, levando em conta as modificações ocorridas durante as reuniões de 1998 e de 2004. O início de sua efetivação de fato como prática escolar e editorial só veio ocorrer em 2010. Foram, portanto, 20 anos de amadurecimento.

As novas regras e um pouco sobre a história desse acordo internacional estão disponíveis no site da ABL; é fácil achar. Agora, o que não é fácil é achar razão pra tanto pandepá. Tem coisas muito mais importantes a serem feitas por uma Academia, Brasileira, e de Letras, que, em caminho oposto à sua prima Acalan (African Academy of Languages), mantém em seu estatuto a seguinte orientação “[ter] por fim a cultura da língua e da literatura nacional” (Art. 1). Ou seja, para a ABL, a gente tem uma única língua e uma única literatura no país.

Tem uma série de questões que concernem à diversidade linguística e cultural do país que merecem mais cuidado e um dos cuidados é parar de falar que no Brasil só tem uma língua. A maior parte das línguas faladas no Brasil – autóctones, alóctones ou crioulas – estão morrendo. O mesmo acontece em todos os países signatários de um acordo internacional que não tem nenhum sentido justamente por ser assinado por tantos países com histórias tão diferentes. As situações de glotofagia presentes no Brasil e na África têm consequências reais de discriminação escolar, social, médica e racial. Hoje, fala-se em algo como uma racialização da linguagem, uma vez que associam-se ao uso de línguas periféricas julgamentos de valor moral, comportamental e estético.

Talvez nenhum de nós citadinos tenha passado por algum constrangimento por não se fazer entender falando o português brasileiro. Parece que não vivemos isso. É, mas parece que não vivemos isso, porque as línguas diferentes faladas aqui ficam escondidas, encabuladas e desconsideradas por instuições de referência como o Congresso Nacional e a Academia Brasileira de Letras.

A Acalan, como dizia, se empenha em se fazer reconhecer dezenas de línguas africanas, em acordo com uma postura política e educacional de inclusão de grupos sociais e étnicos isolados por não serem habilitados nas línguas oficiais de seus países.

Dos 20 países com o maior índice de diversidade linguística, 19 são africanos; juntos, eles representam 47% das 6.000 línguas do mundo. Considerando-se novamente os 20 países com maior diversidade linguística, todos se encontram em categorias com altos índice de pobreza, sendo que cerca de 90% de suas populações não falam as línguas oficiais.

No Brasil, há de 200 línguas. Comparado com o continente africano, o caso é menos grave. Mas, mesmo assim, a maior parte delas está morrendo: pouca gente fala, pouca gente escuta, pouca gente escreve.  E quando uma língua morre, morre muita coisa junto. Receituários etnofarmacológicos, relatos históricos, categorizações comportamentais e relacionais, taxonomias de flora e fauna, tradições alimentares e simbólicas, poesias, músicas, expressões e histórias; tudo isso acaba. E essa morte é lenta e sofrida pra quem dela participa.

Em 1875, Capistrano de Abreu mudou-se para o Rio de Janeiro. Quatro anos depois passa a trabalhar na Biblioteca Nacional, onde  desenvolve boa parte de seu trabalho como historiador; nesse período é também contratado como redator na Gazeta de Notícias. Relata-se que seu ingresso no jornal deveu-se, pelo menos em parte, pelo seguinte episódio:

Trouxe-me este trabalho um Peri de paletó surrado e cabelos em desalinho. Nada lhe posso dizer da cor dos olhos, porque durante os rápidos instantes que aqui permaneceu trouxe-os velados pela impenetrável cortina de umas pálpebras preguiçosas. Disse-me, apenas, que era cearense e admirador de José de Alencar. E deixou-me nas mãos, num gesto brusco, este pedaço de papel, com a respectiva residência. Um tipo original, originalíssimo. (Rodrigo Otávio Filho, “A Vida de Capistrano de Abreu”, In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, vol. 221, out/dez, 1953, p. 57)

O trabalho a que se refere a citação era obtuário escrito por Capistrano referente ao amigo, orientador e comparsa intelectual José de Alencar, falecido em 1877; o relato sobre o aceite para publicação é de Joaquim Maria Machado de Assis, que “depois e ler o texto, disse apenas: é admirável.” (idem). Em 1914, Capistrano de Abreu publica “Rã-txa-hu-niku-í, a língua dos  Caxinauás”. Caspistrano foi eleito imortal da Academia Brasileira de Letras; e não aceitou.

 

 

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Sobre Pedro Perini-Santos

linguista.
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Uma resposta para Capistrano de Abreu e o acordo ortográfico (texto em desenvolvimento)

  1. Siegfried Fuchs disse:

    Muito bom! É o que se chama de ‘identidade cultural’ e nega-la é uma colonização.

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