Por causa da mulher

Pedro Perini-Santos & Beto Vianna

No seu discurso de posse, Dilma Rousseff referiu-se ao cargo que assumia usando aquele termo que vem dando pano pra manga: “Venho para abrir portas para que muitas outras mulheres, também possam, no futuro, ser presidenta.”. E a pergunta surge e ressurge: é certo ou errado dizer presidenta? Nossa resposta é: está certo e argumento não falta.

Primeiro, todos entenderam. Não houve ambiguidade, desinformação, incorência ou impropriedade no uso do termo. Seria incoerente se ela dissesse que vai abrir as portas para que outras mulheres possam ser jogadoras de futebol, ou fechar as portas para outras mulheres que almejam a presidência.

Segundo argumento: não é a língua que muda, mas são as pessoas que mudam a língua. Mudanças ocorrem na medida do uso. E a entrada de novas palavras em uma língua pode ser bastante rápida. Não devem ter mais que 30 anos as expressões brasileiras deletar, x-frango e beijódromo, e elas funcionam muito bem. Mudanças nas marcações de gênero são mais lentas. Estima-se que a substituição do sistema masculino/feminino/neutro do latim, para o sistema masculino/feminino do português careceu de pelo menos dez gerações para se efetivar. E presidenta não é palavra nova nem um novo gênero: é palavra existente usada em gênero existente. O que é novo é o uso do gênero feminino nessa palavra em particular.

O terceiro argumento diz respeito à educação. Os veículos de comunicação têm, em geral, a necessidade de padronizar o uso de itens e formas gramaticais. Mas a língua tem outros usos. Certos comentaristas de gramática têm uma postura muito agressiva em relação às mudanças na língua. Isso não é nada bom. Resulta em um sentimento de baixa autoestima linguistica, apoiado no uso de gramáticas escolares normativas, tecnicamente falhas, dificultando as dinâmicas escolares.

Outro argumento: o uso de presidenta não vai esculhambar o barraco. Não vamos passar a falar eleganta ou estudanta. Faz sentido dizer presidenta como tem sentido dizer médica ou sargenta, pois botar a marca do feminino na profissão é usual quando mulheres passam a exercê-la. Nem toda língua é assim. Em francês europeu, diz-se “madame le professeur Julie Fougère” (ao pé da letra: senhora o professor Júlia Samambaia). Já os canadenses de fala francesa usam, como nós, o feminino: “la professeuse”. Um contra-argumento ruim, que tem circulado por aí, é que a palavra presidente é formada por derivação do verbo presidir, tal como pedir/pedinte, impedindo o uso do feminino. Esquecem de dizer que o resultado é uma forma nominal, que em português sempre pode ganhar marca de gênero. Governanta também vem de governar, mas ganhou marca de feminino para se referir a uma atividade exercida exclusivamente pelas mulheres. Presidenta tem motivação ainda mais clara. O termo aponta para a primeira brasileira no cargo, dando dupla justificação à marca de feminino: o momento histórico e a luta pela igualdade profissional da mulher.

Por fim, a entrada de novos itens e novas formas é sinal de saúde e força de uma língua. O árabe, o japonês e o inglês primam pela eficiência na incorporação de palavras estrangeiras, adaptando-as às suas fonéticas e alfabetos particulares. Ganham assim mais recurso de expressão, mais versatilidade e abrem as possibilidades de escolha de seus usuários. Em vez de criticar o uso de presidenta, basta pensar que temos duas formas na mão. Que façamos a nossa escolha.

link pra o jornal:

O Tempo

( jornal O Tempo, 5/02/2011)

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Sobre Pedro Perini-Santos

linguista.
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9 respostas para Por causa da mulher

  1. Fidélis disse:

    Fala Pedro!
    O que me deixa puto é que perguntaram a ela como preferia ser tratada. Ela escolheu Presidenta e imediatamente toda a grande mídia passou a chama-la de Presidente. É uma puta falta de sacanagem desses midiocráticos.
    Abç
    Fidel

    • No tema gramática e adjacentes, a imprensa brasileira é patética. Ecoa leituras mal feitas de teorias gramaticais que podem ter seu valor como modelos de uso, mas primam pela arrogância de tecer comentários de ordem moral a partir de ditos “desvios” normativos. Valeu, Fidélis.

  2. Elga disse:

    Ei Pedro,

    Concordo plenamente – mesmo que esse assunto não dê margem para concordância ou não, rs.

    Fiquei muito satisfeita ao te ler, pois, como não sou linguista, não sabia argumentar de forma tão pontual, como fez vc, aqui. Mas, agora, já sei de cor o conteúdo e até a cronologia das minhas (suas) divagações técnicas.

    Beijão!

  3. Alex Gabriel disse:

    Legal! E não é que há gente da oposição que tenta usar o uso de “presidenta” pela própria Dilma para dizê-la “agressora” da norma culta, tal como diziam do Lula? Bobagem. Por mera questão de gosto, ópto pelo “presidente”, mas sinto que o uso de “presidenta”, mais do que estar correto, contempla, sei lá, toda uma história de luta pela emancipação da mulher. Portanto, mais legal do que dizer “presidente Dilma Rousseff”, é dizer “presidenta Dilma Rousseff”, de modo a reafirmar que o Brasil tem, finalmente, uma mulher no cargo, caminhando, assim, rumo à igualdade.

    • Claro, a ideia é essa mesmo. Temos opção: duas formas equivalentes no seu valor semântico inicial. Mas tem um diferença. Tem um negócio chamado “enriquecimento semântico” que pode ser sintetizado da seguinte forma: a adjunção de determinadas terminações mórficas podem engendrar mais elementos distintivos à forma nominal em questão. “Lidona” não é exatamente mais linda que “linda”, mas quando se usa a primeira forma, almeja-se algo além de uma suposta descrição objetiva. Há palavras que o enriquecimento semântico é tão marcante que mudam de significado, por exemplo, “camisinha”, “sapatão” e “cafezinho”. Nesses três casos, os finais _inho e _ão não significam variações nos tamanhos dos objetos. Voltando à Dilma: falar “presidenta” tem uma opção assim… Valeu.

      • Vivian disse:

        Leio seus textos com certa frequência, além de esclarecedores, você tem um jeito sofisticadamente simples de escrever o que muito me agrada. Textos enriquecedores, que nos tocam e nos fazem refletir sobre as diversas formas de linguagem e também sobre assuntos que estão em pauta na mídia, no nosso dia a dia, nas conversas de esquina… temas muitas vezes bastante cotidianos. Pedro, parabéns, tenho tido o prazer de ler seus textos e de te admirar cada vez mais.
        Simplesmente uma fã.
        Beijos
        Vivian

  4. Maurício disse:

    Essa questão de masculinizar ou feminilizar os termos é erronea! Presidente não é masculino e nem feminino é “genérico”. Por isso serve para ambos. No caso da sargenta existe o sargento (terminaçao: o). Acredito na padronização da lingua sim (evitando essa bagunça). Terminação na letra e serve para ambos. Errado seria dizer: os homens da terra. (por que homens?) Não seria melhor: os seres humanos da terra.
    Ah, mas se tivermos que separar os gêneros teríamos de escrever as seres humanas e os seres humanos. Não está pacificado o caso de presidenta e colocam isso em concursos. Bah

    • caro maurício,
      compreendo seus comentários; ecoam o que se diz pelo país, sem se saber o que se fala
      por exemplo, de fato, por vezes mais vale dizer “os seres humanos” do que “os homens”
      mas seres humanas e seres humanos nunca vai acontecer
      as mudanças nas línguas ocorrem quando se fazem necessárias, nos modelos disponíveis e se são aceitas pelos usuários
      essas são as premissas de um livro clássico dos anos ’60, sugiro leitura (Lavob, Werzog…; editora Parábola)
      obrigado pelo retorno

      abraços

      Pedro

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