“Politicamente correto” – expressão mal tratada

Admito que agi à revelia do bom senso, mas confesso que li um texto do impressionantemente direitista e agressivo Luís, o Pondé, da Folha de São Paulo. Do conteúdo do texto, não me lembro, mas o que ficou foi que o articulista faz referência à prática do “politicamente correto” como uma doença social, como uma prática hipócrita ou como uma manifestação de “petisto”, sintetizaria o sábio. O argumento de Pondé leva ele (sic) e seus leitores manifestos a divulgarem coisas como: ‘o certo é falar bicha mesmo’, ‘preto é preto; branco é branco’ , ‘policamente correto é um saco’ e por aí vai… Ao final dos textos ou dos comentários blóguicos, como se houvesse algum encadeamento lógico pra isso, criticam agressivamente as discussões sobre a educação sexual na escola, sobre a política do cotas, sobre a restrição de uso de expressões e falam mal do Lula, claro.

Na minha opinião, tem várias coisas aí:

(1) tem coisa que a gente tem que tomar mais cuidado para falar. Os estudos em didática e em pedagogia têm erros e divergências – como todos, aliás – mas já se foi o tempo de se legar ao pedagogo a imagem de uma velha e mal-humorada senhora que usa coque, vestido e óculos, e fala o óbvio.

(2) conhecimento sobre os processos históricos ajudam muito a entender as expressões e seu valor político. A expressão “politicamente correta” foi apropriada pela nova-esquerda americana e inglesa nos anos 60-70. A ideia era por em discussão temas proíbidos pela direita reacionária e desconsiderado pela esquerda, nesse aspecto, igualmente reacionária. (Para o Brasil, vale pensar em Fernando Gabeira, the old one, como representante dessa posutra.) Dentre esses temas, encontrava-se o  debate sobre a adequação linguística ao se referir a negros, homossexuais e a pessoas com deficiência.

(3) para a comunidade surda americana, por exemplo, resultam dessa discussão importantes efeitos sobre seus integrantes. A designação ‘deaf and dumb’ é substituída por ‘Deaf’, preferencialmente com letra maiúscula. Isso fez diferença na identidade da comunidade em questão.

(4) para o Brasil, o efeito é o mesmo. Não é politica e nem conceitualmente correto falar ‘surdo-mudo’ ou ‘portador de deficiência’. Surdos não mudos e deficiências não são portáveis.

(5) no caso de se “chamar para a lide”,  a autoridade de arbítrio, a meu ver, cabe primeiro às comunidades concernidas; segundo, àquilo que os estudos sociolinguísticos e pedagógicos podem oferecer, e, terceiro, à sensibilidade humana.  Essas três entidades, digamos, juntas, não conflitam, mas permitem o amadurecimento pessoal e social da relação que temos com as pessoas diferentes de um padrão vigente e impositivo.

Luiz Pondé desconsidera os 5 argumentos.

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Sobre Pedro Perini-Santos

linguista.
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2 respostas para “Politicamente correto” – expressão mal tratada

  1. Siegfried Fuchs disse:

    è bom que hajam críticos da democracia global!

    Mas ele sugerir Tomás de Aquilo para os pecados capitais a uma mulher, realmente não entende nada! Elas ñao leem ele, ainda bem!

  2. Fidélis disse:

    Acho vc tão sensato ao argumentar! rsrsrsrsrsrs…
    Para a falha de SP e seus colunistas tudo que tem alguma associação com o PT ou com Lula é feio bobo e chato. Agem igual criança mimada que não suporta ver o coleguinha fazendo algo legal e a turma curtindo! rsrsrsrsrsrs
    abç

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