Sobre as Preposições (4)

Por que são as preposições funcionam dessa forma?

Primeiro ponto a ser destacado é que em nossa prática linguística cotidiana usamos um pequeno número de palavras por muitas vezes. Os estudos lexico-frequenciais propostos por Dee Gardner em 2004 apontam para o fato de o uso das ‘2000 palavras mais frequentes’ representar cerca de 75% das ocorrências. Os 25% restantes são divididos entre as categorias ‘vocabulário técnico’, ou ‘vocabulário específico’ e ‘palavras de baixa frequência’. Entre essas 2000 palavras mais usadas, estão os artigos, as preposições e os verbos “vazios”. /…/ E ainda: por um mecanismo auto-explicativo, segundo Antoine Meillet, “as palavras mais frequentemente usadas são também as que mais transformações sofrem e [as que mais] estão sujeitas a desgaste quando são aglutinadas” (Meillet, 1911, p.304), sendo que, por “desgaste”, deve-se compreender algo como a perda de especificação semântica e consequente aumento da variabilidade de uso; uma carga semântica menos específica permite maior variabilidade no uso das palavras. Para ficar mais claro o que venha a ser essa alta variabilidade de uso em função da carga semântica fraca, vale pensar na seguinte imagem:

uma calça jeans pode ser usada em várias ocasiões; o uso de calça jeans é socialmente aceito em situações de trabalho, em situações de entretenimento e em situações familiares. Calça jeans é, portanto, uma peça do vestuário versátil, ou seja, é uma peça “semanticamente fraca” e, assim, de uso bastante variável. Um fraque, por outro lado, é uma roupa simbolicamente muito carregada e exige situações muito específicas para ser aceito socialmente. Ir para o trabalho ou para uma festa de criança com um fraque fica bastante estranho; essa é uma peça do vestuário “semanticamente forte”.

Assim funcionam as palavras: aquelas que possuem muita carga semântica só podem ocorrer em situações que sejam coerentes com a informação semântica e simbólica que elas engendram. Mesmo que soe tautológico – e não é – vale pensar que, como tendência geral, quanto maior for o grau de especificidade semântica da expressão maior será a especificação para o seu uso. É mais frequente o uso de “ter”, “fazer” ou “ir” do que “pinçar”, “ebulir” ou “infiltrar”, por exemplo; é mais frequente o uso de “coisa”, “sentimento” e “animal” do que “batedeira”, “ciúme” e “iguana”. Preposições têm carga semântica fraca.

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Sobre Pedro Perini-Santos

linguista.
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