Preposições (2)

Incômodos preposicionais

Na realização de frases em conversas orais e em textos escritos, atribui-se ao objetivo comunicativo pretendido a motivação das escolhas lexicais a serem feitas. Chama-se alguém de “senhor” ou de “senhora” no lugar de “você”, por exemplo, quando se pretende um tratamento mais formal. O referente da interlocução é o mesmo, mas a escolha da forma de tratamento vocativo indica interações discursivas diferentes.

Comentário semelhante pode ser feito sobre a escolha entre “remédio pra dor-de-cabeça”, “comprimido de dipirona” ou “Novalgina”. Em cada um dos casos, pode-se supor contextos, interlocutores e objetivos comunicativos diferentes: a primeira formulação destaca a função do remédio; a segunda, mais técnica, alude ao princípio ativo do medicamento e, a última formulação põe em relevo a marca do produto. De acordo com a pertinência reconhecida pelos interlocutores, será feita a escolha entre uma das três (certamente há muitas mais) opções listadas.

A prosódia também é um dos aspectos que variam na produção linguística de acordo com o destaque sonoro que se queira dar a uma parte da frase ou a determinada função discursiva desejada. Uma marcação prosódica irônica, por exemplo, pode tornar uma frase lexicalmente afirmativa em seu oposto. Dentro de todo um contexto enunciativo, um “não” iniciado em uma forma melódica ascendente seguido por um movimento descendente pode significar um “sim”.

Ainda considerando as variações de prosódia, a atribuição da responsabilidade em um evento pode ser feita pela marcação sonora dada a um dos elementos da sentença. Vejam que se dissermos que quem estragou o carro foi “o Nuno”, com ênfase sonora dada a esse SN no exemplo (1), ou que foi “na lama”, com destaque atribuído ao SP no segundo caso,

(1) s[sn[O NUNO sv[estragou sn[o carro sp[na lama]]]]].

(2) s[sn[O Nuno sv[estragou sn[o carro sp[NA LAMA]]]]].

teremos interpretações discursivas diferentes. Para o segundo caso, mesmo que “o Nuno” apareça como sujeito da frase, e que exera a função de agente do verbo “estragar”, a responsabilidade do defeito será atribuído ao fato de o automóvel ter trafegado “na lama”. Além disso, a atribuição da responsabilidade pelo estrago do automóvel pode ser reconhecida a “o Nuno” ou “à lama”, mesmo que qualquer uma das duas frases sejam apresentadas separadamente. Ou seja, o destaque sonoro aplicado aos dois sintagmas nominais em (1) e em (2) gera um efeito discursivo mesmo fora de um hipotético contexto comparativo.

Para a escolha específica da preposição a situação é diferente. Não parece haver variação em sua seleção motivada pela estilística, pela pertinência ou pelo destaque sonoro, salvo em situações de comparação – veremos isso mais adiante.

Variações Preposicionais: exemplos iniciais

O uso de preposições é, no entanto, fortemente influenciado pelo nível de escolaridade ou pela “expectativa normativa”. Vejamos algumas séries de exemplos para ilustrar esta ideia.

No caso da alternância entre as preposições “para” e “a”, não há mudança na interpretação avaliativa ou semântica dos exemplos (3) e (4):

(3) Entregue este livro ao diretor.

(4) Entregue este livro para o diretor.

Ou seja, nessas duas ocorrências, há uma forte similitude sêmica das formas preposicionais “a” e “para”. O movimento (“entregar”) e o destinatário (“o diretor”) do objeto (“este livro”) são os mesmos e em igual função discursiva. As duas formas são consideradas corretas e não engendram, em sua alternância, modificação no julgamento sobre o grau de formalidade, relevância ou correção. Nas ocorrências seguintes, no entanto, mesmo que se exercite a troca das mesmas preposições, o resultado é diferente:

(5) * Trouxe este livro a(o) seu pai.

(6) Trouxe este livro para seu pai.

O exemplo (5), com ou sem o determinante “o” junto à preposição, não me parece aceitável para os falantes do PB; já a frase (6), com a preposição “para” é aceitável. Aqui, a alternância entre “a” e “para” gera modificação na aceitabilidade mesmo que as duas preposições tenham exercido valor sêmico semelhante nos exemplos anteriores.

Nos exemplos a seguir, vamos examinar as preposições: “a” e “em” acompanhadas dos determinantes “a” e “o”. Neste caso, a variação do uso das duas formas preposicionais gera mudança de sentido na frase:

(7) Estas tortas são comparadas às do 5o Festival Gastronômico de Ipatinga.

(8) Estas tortas são comparadas no 5o Festival Gastronômico  de Ipatinga.

No primeiro caso, as primeiras “tortas” são comparadas a um outro grupo de tortas servido em um dado “Festival Gastronômico de Ipatinga” que ocorre em um outro momento. Na frase de número (8), “as tortas” constituem um grupo único e são comparadas entre elas durante o “Festival Gastronômico de Ipatinga”. Nesse caso, a troca das duas preposições já examinadas antes resulta em mudança na interpretação das frases,

Os novos pares de exemplos listados a seguir, (9) e (10), (11) e (12), ilustram casos de usos avaliados como normativamente corretos (NC) e usos ditos normativamente incorretos (NI):

(9) Tomaz  vai ao cinema todos os dias. (NC)

(10) Tomaz vai no cinema todos os dias. (NI)

(11) Ele prefere assistir a filmes americanos. (NC)

(12) Ele prefere assistir Ø filmes americanos.  (NI)

Novamente, de um ponto de vista semântico, na interpretação dos exemplos (9) a (12) não há muita alteração em função da escolha entre “a” e “em”, ou entre “a” e sua ausência. Para este grupo de exemplos, as diferenças atribuídas à variação preposicional nas sentenças é estritamente normativa.

Julga-se os exemplos ímpares como “corretos”, porque assim é proposto nos manuais gramaticais escolares, nos ensinos fundamental e médio; e, consequentemente, espera-se que assim seja usado na produção de textos universitários e profissionais. Sobre os exemplos pares, mesmo que resultem em um mesmo significado, é feita uma avaliação negativa.

(Obs: costuma-se anotar em casos como este: por favor, não citar)

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Sobre Pedro Perini-Santos

linguista.
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