Mudanças lexicais e a brasileiração do idioma

Não são as línguas que mudam; são as pessoas que mudam as línguas – esse é um interessante princípio que ajuda bastante a entender os estudos em sociolinguística. Se a gente aplicar ele (sic) aos estudos sobre morfologia, pode-se dizer que não são as palavras que mudam, mas são as pessoas que mudam as palavras. Esse é o tema desse pequeno texto que inaugra o blog em 2011; vamos começar com alguns exemplos:

  • 69% dos apelidos atribuídos aos estádios de futebol no Brasil terminam em –ão; tipo: Mineirão (MG), Bigodão (TO), Cerradão (MT), Justinão (ES), Ernestão (SC)e Viveirão (RS).;
  • Muitos nomes de sanduíche no Brasil têm formato [(X–) + (nome da carne]: X-tudo, X-frango, X-filet, X-queijo, X-picanha e X-salada; e ainda X-faroeste, X-Belém e X-tose;
  • Locais para práticas específicas podem ser denominados como sambódromo, maconhódromo, fumódromo, ficódromo, namoródromo, mijódrono e mais uns 10  ou mais lugares com alguma função específica;
  • Ainda: expominas, expomóveis, expoturismo, exponoiva…. e mesmo expoexpo – evento dedicado à venda de equipamento para exposições

Isso significa o que? Significa que o uso linguístico brasileiro modifica a língua falada no Brasil.  Além dos argumentos de ordem fonética e sintática – especialmente no que tange as relações de acordo verbo-nominais –  há uma progressiva brasileiração do léxico da língua falada aqui.

Essas mudanças são chamadas de mudanças genéticas, porque elas são modelos “aplicáveis” a novas formas. Mesmo que nunca tenhamos escutado frases como (1) O jovem Adamastor passou o Natal como se estivesse num verdadeiro presentódromo, (2) e ele tava comendo um  X-bacalhau; a gente entende. X-  e -dromo estão, agora, no nosso DNA linguístico.

Esta é uma pesquisa que venho desenvolvendo desde o ano passado. Os dados, mesmo que ainda tímidos, já apontam para a existência de várias marcas lexicais que são específicas ao uso nacional; tudo se passa como se o brasileiro se consolidasse cada vez mais como uma das línguas do Brasil.

Nomes de estádios com esse final –ão, coquetéis como caipiroska e [caipi-] + (uva, limão, maracujá, laranja….) e [X-]+ (carne) são formas brasileiras; nem em Portugal, nem nos países africanos “de língua portuguesa”, usa-se (sic) esses modelos.

Me parece que as aplicações dessa pesquisa são novas. Mas, vejam, pelo menos desde 1920, nos trabalhos do gramático e filólogo brasileiro Manuel Said Ali, a pergunta já aparece; segue link sobre a obra dele:

http://cvc.instituto-camoes.pt/said ali

Vale conhecer; é nóis.

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Sobre Pedro Perini-Santos

linguista.
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6 respostas para Mudanças lexicais e a brasileiração do idioma

  1. Valéria Ruiz disse:

    Bom começo para 2011. Texto bom de ler e sua tese convence. O link também é nteressante. Assim fica bom aprender brasileiro!

  2. marilaine disse:

    associação aleatória (lembrança de trabalho da faculdade): quando leio os textos que você eventualmente posta aqui sobre o assunto, me lembro que nas universidades alemãs eles diferenciam os cursos de “português brasileiro” (“Brasilianisches Portugiesisch”)… diferenciação entre variantes que não lembro de ver em nome de outros cursos por aí (mas pode ser ignorância minha)… o que acho, além de coerente (claro), muito simpático… enfim…

    • Aqui se fala em português europeu fazendo referência ao português falado em Portugal e curiosamente na Africa. De fato, a nomeação Brasileiro é simpática e tem valor conceitual, creio.

      • marilaine disse:

        pois é… fiquei surpresa quando, pesquisando pela internet sobre o ensino de português na alemanha, me deparei com o termo. (e na Freie Universität, em Berlin, na época dessa minha pesquisa, havia a oferta, além do “Brasilianisches Portugiesisch”, de Guarani… fiquei com inveja deles.).

  3. Ruy Perini disse:

    Pedro
    Muito interessante a sua pesquisa, apesar do que considerei uma tautologia. Se eu estiver errado corrija-me, se não, reveja a forma da primera frase. Claro: são as pessoas que criam as palavras e as modificam. O português brasileiro é diferente do português porque os brasileiros mudaram a língua diferentemente do que os portugueses mudaram.
    No mais, os franceses não se referem a ‘portugais’ e ‘portugais bresilien’, mas a ‘portugais’ e ‘bresilien’ como duas línguas distintas.

    • Caro Ruy, obrigado pelo comentário. Você tem razão: é, de fato, quase tautológico pensar que as pessoas mudam a língua porque as línguas são mudadas pelas pessoas. Mas, e aqui está o motivo da frase, durante muito tempo e até hoje, há uma crença na dita “ciência” da linguagem que a linguagem funcionama by itself, digamos; são argumentos abstratos ou que, de tal forma, desconsideram os falantes que essas afirmações se fazem necessárias. Sobre o português e o português brasileiro em terras francesas: vous avez tout à fait raison, mas curiosamente eles não se referem à língua falada na Bélgica ou na Costa do Marfim como “belge” e “mafirnien”…. oh là là; abraços, PP

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