Sobre a Ortografia e outras coisas

Gostaria de tecer um breve comentário sobre o acordo ortográfico que vem sendo divulgado e discutido por professores de gramática e pela imprensa. O comentário é: o problema do acordo ortográfico é que ele tem sido discutido demais pelos professores de gramática e pela imprensa. Sim, tem coisas interessantes, como o artigo de Idalena Oliveira Chaves >> http://revistas.unibh.br << Mas creio que esse ultra-debate leva a um desvio de foco de problemas da educação linguística mais sérios. Entre esses problemas, está a desatenção que temos com as 190 línguas reconhecidas no Brasil. Provavelmente há ainda mais línguas no país. Melhor dizendo: a categorização como língua, variação, crioulo ou dialeto não é simples. Para alguns autores, são justamente os erros de categorização que terminam por atribuir maior ou menor valor uma determinada língua, elevando ou rebaixando ela (sic) para um estatuto social estranho ao que lhe seria justo.

O índice de Diversidade Linguística (DI) do Brasil é igual 0,032; o mais alto DI é 0,990 reconhecido em Papua Nova Guiné, e os mais baixos são 0,001 e 0,002, reconhecidos respectivamente no Haiti e em Cuba. Esse indicativo foi estabelecido nos anos ‘50 por Joseph Greenberg. O DI indica as chances de haver em um país maiores ou menores chances de 2 pessoas falarem línguas diferentes.

O que quer dizer isso? Quer dizer que é possível criarmos escolas e publicações bilíngues no Brasil. Cidades que têm uma importante comunidade de descendentes de poloneses ou angolanos ou guaranis, por exemplo, ganhariam muito se a todas as crianças da cidade a língua e a cultura desses grupos fossem assunto curricular; na paz. Tudo leva a crer – e há estudos da UNESCO que apontam para isso – que a partilha de experiências culturais diferentes gera boas relações de troca e consequentemente melhores resultados escolares, maior diversidade de opinião e mais atitudes cooperativas. No último dia 9, o Governo Federal publicou um decreto que pode ser um interessante passo nessa direção. “Sobre o Inventário Linguístico”, (Decreto 7387/2010) >> www.planalto.gov.br <<

Quem sabe?

Sim, sobre a ortografia: o estabelecimento da critérios de correção ortográfico, que eu saiba, remonta ao monge Alcuíno de Iorke (735- 804); ele virou santo; Santo das Universidades Cristãs. Amén!

PS: o blog da Luisa Godoy, Quer Dizer, tem um post ótimo sobre o tema; deem uma espiada; o link tá ao lado.

PS2: mais um link valioso sobre o tema >>http://biblio.etnolinguistica.org <<

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Sobre Pedro Perini-Santos

linguista.
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5 respostas para Sobre a Ortografia e outras coisas

  1. Fidélis Alcântara disse:

    Blz Pedro!
    Até achei que era um texto do livro!
    Mas é novo e muito bom! Pelo visto você não perdeu o jeito de escrever sobre questões polêmicas e complexas com extrema maestria e simplicidade. É uma sumidade! Vou ver as possibilidades de juntar seus escritos e promover a sua beatificação. É o primeiro passo para a santificação! rsrsrsrs…
    abç,
    Fidel

  2. marilaine disse:

    nossa… nem sabia que existia um índice de diversidade lingüística… shame…

    • Pedro Perini-Santos disse:

      Se interessar, Marilaine, segue nota que escrevi sobre:

      Índice de Diversidade Linguística de Greenberg (DI) tem a seguinte fórmula: DI = 1 – Σ(Pi)2, onde Pi = o percentual relativo aos usuários da língua i; o uso de i varia de 1 a n, onde n = número de línguas faladas nessa comunidade e Σ = somatório de (Pi)2 para todo valor de i. Se o DI for 1, isso significa que no país analisado as chances de duas pessoas falarem a mesma língua é nula; por outro lado, se o DI for 0, não há chances de haver 2 pessoas que falem línguas diferentes; assim, tem-se a seguinte escala: [mais homogêneo: 0 ≤ DI ≤ 1:mais heterogêneo]. De acordo com publicação da UNESCO de 2009, associam-se os mais altos valores de DI a Papua Nova-Guiné com 0,990; a Vanuatu, 0,972; e às Ilhas Salomão com 0,965;. reconhecem-se os índices mais baixos de DI ao Haiti, a Cuba e a Samoa respectivamente com os índices 0,001; 0,002, e 0,003. A taxa DI do Brasil é 0,032 O método tipológico aplicado por Joseph Greenberg é contestado, dentre outros, por Lyle Campbell em resenha publicada na Language 64(3), 1988.

      Para a fonte dos dados: http://unesdoc.unesco.org/images/0018/001852/185202E.pdf.

  3. marilaine disse:

    thanks, pedro.

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