Tributo a Dr.House

Existe um personagem de um seriado americano homônimo chamado Dr. House. Encenado por Hugh Laurie, Dr. House é um médico sarcástico, céptico e capaz de fazer diagnóstigos aparentemente inusitados a partir de “detalhes” que passam desapercebidos para os demais colegas do hospital-escola em New Jersey onde trabalha. Esse é o quadro geral do programa. Sugiro assistir; não sei dizer se os procedimentos de diagnóstico e conduta são condizentes com a realidade, mas há vários apontamentos sobre saúde, vida, doença, morte e sobre as reações que temos diante da situação hospitalar bastante interessantes. Mas o sentido deste blog não é exatamente esse.

O que gostaria de fazer é prestar tributo ao Dr. House porque ele usa bengala e não se fala sobre isso no programa. Dr. House não é o Dr. Bengalinha, o Coxo, o Manco, o Aleijado ou o Deficiente. Dr. House é um excelente médico, charmoso – comenta-se – interessante, polêmico e que no seriado exerce a função e a simbologia de um homem que é médico e tem mais uma meia-dúzia-de-3-ou-4 características próprias ao personagem, dentre as quais usar bengala.

Pra mim, ter um personagem assim na televisão tem tido um efeito muito interessante: eu uso bengala e o Dr. House é uma referência estética e comportamental valiosa pra mim.

Passei a usar bengala há pouco tempo. Tive uma doença muito grave que me deixou com alguns sequelas. Nada determinativo na minha vida cotidiana, que pouco a pouco vai se reconstruindo nesses quase dois anos de luta, mas o corpo mudou e tenho que aprendê-lo; eu e quem vive ao meu lado.

Fato é que perdi parte importante do movimento do joelho direito, o que torna necessário o uso do apoio de uma bengala em madeira escura, com alguns entalhes geométricos sutis, de modelo tradicional e com um anel metálico entre a haste e a curva. English style? Probably. Mas o que conta é que precisamos de modelos estéticos e Dr. House tem esse valor pra mim. Talvez não apenas para mim, suspeito.

Há pouco tempo numa novela da Globo teve uma modelo (Alinne Moraes) que sofreu um acidente de carro e ficou cadeirante. Assisti alguns episódios, e sei que o fiz porque de alguma forma acompanhava e me projetava em sua recuperação clínica e fisioterápica. Não se seguiu (sic) à risca os procedimentos terapêuticos que propõe de fato a fisioterapia. Sabe-se, nesse sentido, que a Rede Sarah orientou a equipe de atores, mas não cedeu o uso de seu nome ou instalações para a filmagem das cenas com a atriz. Mas isso não é fundamental.

Creio que o que vale assinalar é que a modelo, sempre linda e agora cadeirante, termina “bem” e se casa com o médico bonito, do bem e de bom humor da novela. Já é alguma coisa, mas seria bom se se pincelasse (sic) algumas pistas do tipo “show must go on” para ela e que, além de contrair as clássicas núpcias globais, continuasse a exercer sua carreira de modelo, uma modelo cadeirante.

Isso faria bem a muita gente; e se calhar, ao próprio comércio de moda e roupas que encontraria um público consumidor desafiador.

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Sobre Pedro Perini-Santos

linguista.
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11 respostas para Tributo a Dr.House

  1. Alex Gabriel disse:

    Olá, Pedro. Grato por compartilhar o post. Nunca assisti ao seriado, embora me haja sido recomendado. Nunca, porém, me foi mencionada a questão que você levanta. Penso que que a presença de personagens com tais características na TV só vem para o bem. Em se tratando de produções globais, porém, fico um pouco com o pé atrás, Pedro… A princípio a abordagem é válida, mas, pensando mais profundamente, fico me perguntando se não seria muito confortável a abordagem da deficiência em um contexto como o daquela personagem, ou no contexto da personagem com síndrome de down de uma outra novela do mesmo autor (loirinha, linda e filha da personagem da Regina Duarte, médica rica). Creio que exista ainda uma certa resistência, exagero (conseguiria uma paraplégica cuidar de gêmeos?) e até mesmo algum “floreamento”. Mas, claro, é apenas um questionamento meu. Ler seus escritos, como sempre faz enorme bem. Quero, na próxima vida, ter a sua força. Abraço.

    • Oi Alex, pela primeira vez, de fato, e já vale para os outros comentários que sucedem ao seu, senti que o post no blog tem algum efeito interessante. Confesso que fiquei um pouco receoso e colocar esse texto no ar por ser uma exposição pessoal grande. Mesmo que tenha clareza do que se passou e passa comigo, ainda vai demorar um bom tempo para eu me reaprender. Amigos, como você, ajudam muito. Tem coisas que você diz – e estendo o que aqui digo às comentadoras Ana Flávia e Ana Paula – que tem muito valor. De alguma forma, sinto que preciso da voz do outro para aceitar essa nova pessoa. Por isso, obrigado. Apesar de um certo receio, achei por bem postar o texto porque algo que dificulta muito a inclusão das pessoas diferentes é o tabu de não poder falar sobre o tema. Pensando na Universidade, por exemplo, posso lhe lembrar que existe muita resistência dos professores contra o ingresso de alunos surdos, cadeirantes, cegos ou que tenham alguma deficiência outra. Curioso – melhor dizer: patético – porque espera-se justamente dessa instituição uma certa sapiência e reflexão sobre o que é ser um professor, um estudante ou simplesmente uma pessoa que tem diferenças. Para te dar uma pista, fiz um concurso em uma IFES mineira… e fui sumamente reprovado “porque precisava melhorar a saúde antes” – disse uma pessoa da banca. Detalhe: essa mesma banca pediu, fora do previsto pelo edital, um parecer médico. O parecer foi em ofício registrado do Hospital Sarah, entregue e assinado pelos dois médicos que cuidam da minha recuperação. A luta é árdua, mas vale.

      Valeu pelo comentário.
      Abraços, Pedro

  2. Ana Flávia disse:

    Como espectadora fiel de Dr. House, fiquei muito feliz com o seu texto (como sempre ótimo). Somo alguns elementos que, para mim, reforçam as considerações sobre os aspectos positivos da série:

    1. O Dr. House adquiriu a limitação física como resultado de um diagnóstico tardio (um derrame na aorta não diagnosticado a tempo). Assim, o brilhantismo dos seus diagnósticos é resultado da sempre valiosa referência de se usar o lado bom das coisas ruins. Mesmo com um tom de chavão para quem está de fora do sofrimento tentar acalentar aos seus próximos que passam por isso, gera bons frutos…

    2. A título de informação, os sintomas X diagnósticos do Dr. House tem base científica… Quatro médicos altamente graduados e renomados fazem parte de uma equipe de consultores que elaboram “a parte médica” do seriado, para impingir veracidade (Lisa Sanders, David Foster, Harley Liker são clínicos gerais, John Sotos é cardiologista).

    3. De fato, a deficiência de House não é mencionada na série, nem vira motivo de chacota, a não ser por um único personagem: ele mesmo! Com seu fantástico humor e sarcasmo, faz algumas otimas tiradas de superação da própria limitação, de forma divertida.

    Ao prezado Alex, que postou acima, faço uma humilde observação, se me permite… Não é exagero global a história dos filhos gêmeos da personagem Luciana. São inspirados em Flávia Cintra, 37 anos, jornalista paulista, tetraplégica desde os 18 anos. Ela foi consultora da novela, e permanece na Globo (faz algumas reportagens especiais no Fantástico), é mãe de gêmeos… Sua história foi inspiração para Manuel Carlos compor a personagem de Aline Moraes. Já vi algumas matérias sobre a Flávia, e é impagável a cena em que ela conta que seus filhos aprenderam a andar segurando na cadeira de roda…

    Encerrando Pedro, acho ótimo a sua associação com o House, e fico pensando porque eu não pensei nisso antes… humor refinado, charme, inteligência vocês dois tem em comum… A bengala só complementa o conjunto!

    Abraços
    Ana Flávia

    • Ana Flávia,
      show: aula sobre Dr. House, obrigado. Aula também sobre como a mídia poderia (e já faz um pouco) ter uma atuação mais ativa na inclusão estética, comportamental e conceitual das pessoas que não se enquadram na agressivamente preconceituosa expressão ” só gente bonita”. Me lembro de uma matéria sobre o Festival de Jazz na Savassi em que um(a) repórter entrevista uma pessoa que assistia o (sic) festival. Que o entrevistado tenha dito “é legal, porque só tem gente bonita”, quase que OK, mas a rede de televisão ter levado isso ao ar é muito grave. Finalmente, obrigado pelos pontos em comum com o Dr., diz você…. ai ai ai. Beijo, Pedro

  3. Ana Assis disse:

    Pedro,
    as leituras do seu blog e conversas recentes colocaram algumas questões como deficiência, comunicação assistiva e afins na ordem do dia (pelo menos do meu dia!) até que num belo destes me deparei com um site de uns caras legais que trabalham uma interessante proposta de “design assistivo” (lembra?). Foi a primeira vez que vi essa expressão, que não era exatamente o mesmo que design universal ou normas de acessibilidade. Pelo menos para este grupo de designers os dois conceitos anteriores (importantíssimos e fundamentais, claro) vinham acrescidos de uma dimensão estética que me encheu de alegria.
    Objetos lindos, inteligentes, tecnológicos!
    (lá no site poucos ainda, mas que começaram a se multiplicar em possibilidades na minha imaginação).
    Portadores de deficiência ou não, todos recorremos cotidianamente a pequenas “próteses” (órteses, na verdade) com o intuito de aumentar a performance do corpo. Encontramos nas lojas vários modelos de óculos, e escolhemos de acordo com a nossa fisionomia, personalidade, gosto e até o estado de espírito do dia! E o mesmo para uma série de objetos/próteses cotidianas, do telefone celular ao modelo do automóvel. Ainda que sem querer entrar em questões de mercado, tem um detalhe da natureza humana que o próprio mercado reconhece, e muito, que é essa necessidade que temos de autonomia estética.
    Autonomia! sempre ela!
    Ver o Dr. House e a Aline Morais são importantes referências de identificação, sem dúvida. E gostei também da sua sugestão de uma articulação com o consumo e a moda. Sugiro então pensar no processo de assimilação da moda (e do gosto em geral) como um ciclo de alternância entre identificação e diferenciação. Num primeiro momento e numa escala de massa todos querem parecer os modelos da revista ou da tv, para logo aparecerem novas tendências, conseqüências da vontade de inspirados inspiradores de serem únicos e particulares.
    Diferenciação ou autonomia neste caso?
    Gosto de pensar na liberdade de poder fazer suas próprias escolhas estéticas, de enxergar nos objetos, além das questões meramente funcionais, a capacidade de deixar o cotidiano mais divertido. E voltando então ao design assistivo… tomara que vire tendência!
    Autonomia do corpo e do gosto!!! Adoro!!!

    • Oi Ana, super total o que vc escreve.
      Acho que tem um livro da Kalil (não estou certo) sobre roupas para cadeirantes e tal. Tenho a impressão que se trata mais de um manual adaptativo do que um debate sobre a estética e o efeito identitário roupa/pessoa, mas já é algo. Como já comentei com vc uma vez, tendo fortemente a pensar que há uma série enorme de debates concernindo a educação e a linguística, por exemplo, que tem muito mais a ver com urbanismo do que livros e métodos. Obrigado pelo comentário. Beijos, Pedro

  4. Sandro Amadeu Cerveira disse:

    Ola Pedro,

    Gostei muito do seu texto. Você deve estar cansado de ouvir que escreves bem. Ouça de novo: Você escreve muito bem.

    Para além disso identifiquei-me com você. Explico. Ha duas semanas eu sofri um acidente. Capotei meu carro e felizmente eu e os colegas estamos bem. Fui o unico com algum “ferimento”. Uma discreta trinca em minha primeira vértebra me obriga agora a usar (e pelo resto do verão) um colete cervical do tipo “miami”. Nada que se compare a luta heróica que você e sua familia tem vivido. Minha identificação se da porque ontem sai de meu repouso e claustro domestico para uma tarefa simples. Ira ao banco. Ai vem minha identificação. Voltei pra casa indignado. Talvez seja parnóia minha, mas fiquei com a nitida impressão de que as pessoas não tinham a menor vergonha de ficar encarando meu novo aparato.
    Em tres meses não estarei mais de “Darth Vader”, mas e quem precisa viver acompanhado de seu apoio, como você, o House ou os cadeirantes? Fico me perguntando se eu também não ajo desse jeito. Provavelmente sim. Mas é muito chato viu…
    Continue nos brindando com seus textos…
    Abração

    • Sandro, és tu, amigo, o cara que escreve bem. Linguistas não escrevem bem, no máximo: de forma clara. Faço votos de plena e rápida recuperação – força! Sim… as pessoas olham muito. Isso não me parece grave, digamos, mas o constrangedor é quando se afastam e não conversam. Teve uma vez que fui a uma festa de pessoas amigas: houve um silêncio curioso; pra mim, incomodativo. A manutenção da doença e da imperfeição do convívio social facilita esse tipo de reação. Can we change that? Abraços, PP

  5. pablo disse:

    Pedro,

    Comento pela primeira vez no blog, que é uma delícia. Textos bem escritos, hoje, já são um sucesso.
    Primeiro, uma suposta (não tenho certeza) correção. A novela com a criança com síndrome de Down não foi escrita pela mesma pessoa do que a atual, acho. Conheço o pai dela, da criança, ele relutou muito pela exposição, mas foi um sucesso. Fez bem pra ela (o mais importante, a meu ver), pois estimulou-a, proporcionou experiências diferentes, foi um desafio e ela foi, tipo, aclamada. Sei que eles foram a Portugal e ela foi recebida muito bem. Ou seja, foi positivo pra ela e expôs na mídia um problema real, o que considero positivo. Acho que faz quem lida com essa questão mais confortável e derruba preconceitos. Raro momento da Globo ajudar. O mesmo, apesar das ressalvas corretas que fez, sobre a cadeirante. Mas, é um começo, é um passo positivo.
    Sobre o Dr. House, nada a declarar, sou fã, assisto direto. E ele é o cara, escrotinho, mas o cara. (desculpe a avacalhação, há coisas que comentou importantes, mas, nada a acrescentar, seus comentários bastam).
    Outra, acho importante você falar, sim, inclusive dos seus problemas. Expor, falar, escrever… a linguagem, bem sabe, constitui realidade. Acredito que isso contribua para tornar a realidade melhor, never stop, please. Merci. Hasta.

  6. Jean Reinert disse:

    Primeira vez que vejo o blog e por conseqüência, primeiro vez que escrevo (he he he ). Resolvi fazer um comentário pois além de ser paraplégico há quase 30 anos, ainda sou professor de português (talvez não dos melhores) e vejo como muito engraçado os alunos que chegam para ter aula com um professor que anda de cadeira de rodas. Primeiro ficam meio assim, com cara de “caboclo”, mas depois encaram…

    Mais engraçado foi na época de fazer estágio quando encontrei certa dificuldade para encontrar uma escola com adequações e o professor da cadeira de estágio disse em plena sala de aula: “Nem sei por que eles ainda exigem o estágio para te formares… Nunca irás dar aulas mesmo…”. Na época eu nem quis discutir pois, já tinha problemas com o dito professor, e nem de longe pensava em lecionar. Mais tarde caí na profissão por falta de grana, gostei e aqui estou até hoje.

    Sobre a estética, queria fazer uma consideração: Comprei uma cadeira “quick gti” (quem anda, conhece), pela beleza e funcionalidade. Morri de rir a primeira vez que num aeroporto em São Paulo, uma outra cadeirante passou por mim e disse: Bonita cadeira…

    Mas também é engraçada a maneira como as pessoas ainda olham para os que são “meio” diferentes. Apesar de que vocês nem imaginam o quanto já mudou isso tudo. Eu vivi…

    • Caro Jean

      muito obrigado pelo comentário aqui no blog. Eu não tinha o hábito de blogar “neither”; digamos que blogs e Facebook surgiram quando estava hospitalizado… na luta pela vida. Mas gostei…. acho que esses canais internáuticos podem desempenhar um papel interessante de contato. Escuta: ainda não voltei a dar aulas; devo voltar no semestre que vem. Confesso que sinto um certo receio, timidez.. pra não dizer constrangimento com meu novo status físico. Bom… talvez falar sobre o tema ajude, certo?

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