Sobre a Surdez (2)

Já foi aqui citado o conceito de tipologia linguística. A ideia básica é a seguinte: as línguas usam estratégias, mecanismos e formas diferentes de acordo com a sua caracterização tipológica.

Isso tem muito a ver com a noção de amadurecimento corporal, social e comunicativo, ligado, creio, ao ambiente no qual se vive. Por exemplo, há línguas indígenas brasileiras em que as referências de espaço têm mais a ver com o distanciamento do que com a aproximação; sobre o tema, vale ler Sérgio Meira – tem texto no final deste post.

Para essas populações, as referências espaciais da habitação se remetem prioritariamente a “um ponto central da oca”, se remetem a algo como um mastro que sustenta as taquaras do teto. Assim, no lugar de falar que uma bacia, por exemplo, está “perto da parede”, “ao lado da porta” ou “debaixo da janela”, fala-se que o tal objeto está “mais ou menos distante” deste ponto central da habitação que não tem divisões internas e poucas janelas e portas. Com isso, as formas de expressão de distância  – como as preposições, os advérbios e as medidas espaciais –  são tipologicamente diferentes das daquelas línguas cujas referências espaciais cotidianas levam em conta as paredes, as portas, as janelas e o mobiliário da casa.

Para as línguas sinalizadas, há efeitos semelhantes. As línguas de sinais são multifuncionais: servem-se de expressões faciais, configurações das mãos, posicionamentos (relativos) dos braços, movimentos do corpo e outros recursos, ainda bastante desafiadores para a teoria linguística, que as fazem ser línguas tipologicamente bastante diferentes do inglês e do brasileiro, por exemplo.

Sim, a comunicação em português, em brasileiro ou em inglês também usa tudo isso: face, corpo e movimento, mas em graus de complexidade e frequência diferentes. Interessante: se comparado ao japonês e ao inglês, dizem alguns analistas, a gramática da LIBRAS mais se aproxima, tipolgicamente, do primeiro idioma do que do segundo, porque o japonês usa vários tipos de alfabeto em sua forma escrita. Dan Slobin fala um pouco sobre isso no artigo que acompanha este blog.

Em tempo, existe uma tipologia dos numerais também. Estudos comparacionistas apontam para idiomas que listam 20 formas de numeração; a gente usa algumas: singular/plural; dúzias, pares, dezenas… Isso é assunto pra outro blog – se eu achar o artigo sobre isso; enfiei no armário e deve estar lá…

Dan Slobin – Breaking the molds

Sergio Meira – paradox escaped, about language aquisition

Anúncios

Sobre Pedro Perini-Santos

linguista.
Esse post foi publicado em Artigos sobre linguística e marcado , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s