Sobre a Surdez (1)

Registra-se a existência de Comunidades de Surdos (doravante, CS) desde o ano 5000 a.EC., ou seja, acompanham as primeiras notações sobre linguagem humana as pistas históricas sobre línguas sinalizadas. Por vezes mais ou menos integradas à organicidade social na qual se encontram, as CS se constituíram e se constituem motivadas por solidariedade, por identificação (étnica, talvez) e por comunicação. As literaturas técnica e de divulgação registram casos muito interessantes como o uso de língua sinalizada por índios brasileiros (tribo Kaapor-Úrubo, Maranhão), por descendentes de surdos nas Ilhas Martha’s  Vineyard (USA) e, por grupos beduínos, nicaraguenses, israelitas e nigerianos. Com maior ou menor grau de introsamento social, as CS desses povos, digamos, gozaram de algum tipo de valoração social que as diferenciava dos ouvintes. Às crianças surdas israelenses beduínas (?), por exemplo, alcançam um melhor desempenho escolar do que seus pares ouvintes, gerando, assim, maior chance de empregabilidade em suas vidas profissionais.

Em todos os casos, porém, à mulher surda lega-se papel social e familiar inferior. Marca nítida desse quadro é um maior índice de mulheres surdas solteiras ou em papel de “segunda esposa” no caso de sociedades poligâmicas, em comunidades em que o casamento faz parte da aceitação pelos pares. No Brasil, há claras indicações de as mulheres surdas se casarem mais mais novas do que as ouvintes se optarem por um marido ouvinte e, assim, externo às CS. Elas têm a vida social mais tolhida, mais controlada pelo cônjuge e, em geral, não frequentam a escola e a universidade.

Mulheres, crianças, homens e adolescentes surdos são mais comumente vítimas de violência doméstica, violação sexual e humilhação.  Observações referentes a esse tipo de agressão são feitas em relação a Cuba, à Holanda e à Suécia. Tudo se passa como se “eles já estivessem no lucro ao serem aceitos entre os ‘normais’”. Há poucos dados a esse respeito entre nós, mas é nítida a resistência que se impõe aos surdos e às CS mesmo em ambientes supostamente instruídos, como a Universidade e a escola. Daí, um interessante debate se apresenta: deve o Brasil criar uma Universidade para Surdos, como existe em Washington? (cf. http://www.gallaudet.edu/). Pessoalmente: voto por.

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Sobre Pedro Perini-Santos

linguista.
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Uma resposta para Sobre a Surdez (1)

  1. Sig FF disse:

    Precisamos nos comunicar entre si, não é mesmo?

    E, infelizmente, há essas violências tb – a educação precisa sempre de estar sendo feita

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