A falsidade do caso da “bolinha de papel” na VEJA e adjacentes

Peço licença aos filósofos e cientistas políticos para fazer uma análise linguística, se é que merece esse nome, do que vem acontecendo durante a campanha eleitoral. Não nego o tom pessoal, e de certa fora bastante apressado, da proposta que aqui publico, mas saliento que ela não parte do vazio e, se calhar, há urgência em sua divulgação. Tampouco nego minha opção pela candidata da esquerda ou a vontade de propor uma reflexão entre os colegas em direção a uma visão fortemente crítica dos textos da Revista VEJA, notadamente seus colunistas mais agressivos: Roberto Pompeu de Toledo, Diogo Mainardi e Reinaldo Azevedo. A reflexão se estende também a muita gente da imprensa ou de nossos convívio diário que incorrem em um erro grave de interpretação que se chamará, aqui, e na falta de melhor termo, de “abdução perversa”.

Há um autor basilar para os estudos semânticos chamado Charles Pierce. Ele não é muito estudo pelos linguistas, como eu por exemplo, mas há 3 conceitos associados de sua lavra que podem nos ajudar a entender linguisticamente o “caso da bolinha de papel na cabeça do Serra”.  Para Pierce, ocorre (a) dedução quando reconhece-se a um elemento x, as características de um grupo a, se x pertence a a; assim “é um Fiat 2005, um automóvel que esteja em cegonha de Fiats 2005”; (b) por indução, aufere-se característica a um conjunto a, a análise (ou reconhecimento) de caracterísicas junto aos elementos que pertencem a a; assim: “aquela cegonha carrega Fiats 2005, porque os Fiats 2005 (reconhecidos) pertencem àquele cegonha”; finalmente (c) abdução. Essa é a mais complicada. Aufere-se a um elemento x, a característica de y, a partir do fato de x e y pertencerem a um conjunto a; assim: “aquele carro é um Fiat 2005, porque pertence à mesma cegonha em que se encontra aquele outro carro b, que é um Fiat 2005”.  Ok, isso posto; vamos ao caso da “bolinha de papel”.

O que dizem a imprensa e a direção do PSDB: “O PT atacou o Serra” (presidente do PSDB); ou “O Nazismo está nas ruas” (Azevedo); ou “O PT é terrorista” (Mainard, Toledo). Se não forem exatamente esses os textos, são algo bem próximo. Analisemos: (a) alguém jogou uma bolinha de papel (e/ou um rolo de fita crepe) na cabeça do Serra; (b) esse é um ato violento; (c) tinha gente do PT por perto; (d) o PT é adversário político do PSDB; (e) o nazismo é um “movimento” violento (não sei como denominar esse fenômeno) catastrófico da Humanidade.

Todas as afirmações são verdadeiras. E o que é falso, portanto? Todas as associações lógicas divulgadas; ou seja, todo o resto! (1) O alguém que jogou a bolinha de papel e/ou  rolo de fita crepe na cabeça do Serra pode não ser do PT; (2) o ato violento ( = jogar bolinha de papel e/ou rolo de fita crepe) não é um ato do PT, mas é um ato de um alguém que não é necessariamente do PT; (3) a proximidade de gente do PT não garante que tenha sido gente do PT que tenha jogado os objetos; (4) o PT é advesário político do PSDB; os petistas – ou o petismo, como dizem – não são adversários dos tucanos, ou do tucanismo; (5) e finalmente, associar, o PT ao Nazismo é impressionantemente falso e perverso.

Dessa prática de lógica abdutiva perversa praticamente livre, aparecem as chamadas da imprensa estilo VEJA que promovem, incitam e exercem, elas mesmas, a violência textual de colocar como grupos inimigos pessoas que têm ideias diferentes.

Espero contribuir com a prática da boa política e do bom jornalismo com este pequeno texto. Ela vai sem revisão e talvez com erros teóricos lógicos; mas o argumento central, creio, é sólido.

 

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Sobre Pedro Perini-Santos

linguista.
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Uma resposta para A falsidade do caso da “bolinha de papel” na VEJA e adjacentes

  1. Sig FF disse:

    Há o problema de terem sido jogados dois (2) objetos, sendo o 2o, pesado, parece um celular; e isto só foi mostrado na tarde do dia seguinte, mas o programa eleitoral doPT à noite não tomou cuidado disto. Em segundo lugar, havia um clima de briga e isso era um problema. Neste ponto, concordo que não se pode afirmar as alcunhas de adversários da imprensa e o problema da imprensa ter mui poder e ter de se garantir manter um equilibrio nisto. E, tb, o fato de que “Serra” é um provocador e houve provocação (veja a foto dele armado de fusil!).

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