Sobre a definição dos verbos (6)

Mais um pouco sobre os verbos.

Tem uma classificação bastante interessante sobre as palavras: elas podem ser “cheias” ou “vazias”, sendo que a passagem de uma categoria a outra é um espaço sem buracos. Isso quer dizer que existem palavras muito cheias, palavras cheias, palavras um pouco cheias e palavras vazias. O que isso quer dizer? Vamos usar exemplos. Se a gente fizer um teste com a seguinte exercício pensar na palavra x e colocar x como “cachorro”, “martelo” ou “caneta”, a gente vai ter uma imagem mais precisa do que se for colocado no lugar x as expressões “coisa”, “vegetal” ou “instrumento”, certo? Esta é a ideia básica: há palavras que são ‘cheias de informação’ nelas mesmas e há outras que são ‘mais vazias’. Para os verbos, a observação é a mesma. “Fazer”, “ter” e “haver” são verbos vazios, ou seja, são verbos cujos esquemas evocados (ou imagens) são vagos. Salvo se usadas como respostas, as frases a seguir não são aceitáveis: (1)* Eu tenho/*tive/*terei; (2) * Nós fizemos/*faremos/*farei. Ou seja, a falta de definitude dos verbos vazios faz com que seu uso seja sempre condicionado à presença direta ou anafórica de algum complemento. Se dissermos, porém, (2) Eu almoço/almocei/almoçarei, as chances de compreensão desses exemplos são claras.  Sabemos que quando se diz que ‘alguém almoçou’, pensa-se que ‘uma pessoa consumiu um prato de comida (em geral, composto por uma carne, um carboidrato e uma salada); usou garfo e faca; estava diante de uma mesa; e que essa refeição aconteceu entre aproximadamente as 11 e as 14 horas’. Caso a refeição tenha algumas características diferentes desse modelo esquemático, pode se fazer necessária alguma indicação extra; algo como “almocei apenas uma salada”, “almocei em pé” etc. Essa é a ideia de plenitude, ou de palavra cheia, em termos cognitivos. OK, o tempo e o aspecto verbal modificam a aceitação dos exemplos, mas isso é assunto para mais tarde.

Obs: o sinal (*) marca que a frase não é boa.

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Sobre Pedro Perini-Santos

linguista.
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3 respostas para Sobre a definição dos verbos (6)

  1. luisa disse:

    Pedro, que outros exemplos de verbos cheios e um pouco cheios? E os termos técnicos pra isso? Essa é a “frame semantics”?

    • Oi Luisa, são os semantic frames, ou schemata; isso.
      Mas tem umas coisas a mais:

      O Len Talmy fala em lexificação – algo assim: o uso de um verbo, que expressa um processo, progressivamente exige menos detalhes entre os falantes. Por exemplo, duas pessoas que trabalham há tempos juntos em uma cozinha podem se comunicar usando frases mais curtas, digamos. Tem aspectos contextuais nisso. Por exemplo, dois enfermeiros conversando, e um fala; – Você rende o Zé essa noite; ou você vai render; ou quem vem te render?… são expressões lexificadas = substituir alguém em um plantão….

      O verbos mais vazios foram gramaticalizados (em vário graus); tipo: rolar, acontecer, ficar…. que aceitam vários complementos pq são vazios, ou light; cheios: adoecer, amamentar, apimentar, temperar… Mas sempre sem papéis temáticos propriamente necessários… mas pertinentes. Tem a ver?

    • Seu link já no blog…
      comentarei seus textos depois
      beijocas

      PP

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