Sobre a definição dos verbos (5)

Antes de comentar um pouco mais sobre os verbos, vale pensar um pouco sobre algumas expressões muito comumente usadas, mas com pouco critério e que farão parte desta postagem; são elas: gramática escolar, gramática normativa e gramática tradicional. Elas não são a mesma coisa. As duas primeiras se confundem porque é na escola que se estuda (sic) as normas da gramática. Mesmo assim, tem diferenças: é possível haver um livro de gramática normativa – um  manual de redação jornalística, por exemplo,  que não tenha nada a ver com a escola –, por outro lado, é também possível (e desejável, aliás) que as escolas ao tratarem da gramática adotem textos, conceitos e discussões “escolares”. E finalmente, gramática tradicional remete a obras antigas, clássicas, e que falavam de gramática de uma forma muito diferente do que se fala hoje. A gente mistura esses conceitos porque é recorrente as pessoas pensarem que “a norma gramatical tradicional deve ser ensinada na escola”; aí, fica tudo misturado. Um dia falaremos sobre esse tema, se interessar.

Bom, os verbos segundo a gramática escolar são classificados como (a) intransitivos e (b) transitivos, sendo que esses últimos podem ser (b1) diretos, (b2) indiretos e (b3) diretos e indiretos, ou bitransitivos. Funciona? Vamos pegar o verbo “morrer” como exemplo e usá-lo nas frases: (1) Getúlio morreu; (2) Getúlio morreu em 200 reais; (3) Getúlio morreu em 200 reais com a compra de um terno velho; e ainda: (4) Getúlio morre em 1954; e (5) Getúlio morre. Desses exemplos, acho que o número (5) é meio estranho. Mas o que vale observar é que dá pra falar que esse verbo – frequentemente citado como intransitivo, do tipo (a) – pode aparecer de várias formas diferentes e com uma quantidade de complementos que varia bastante. Por quê? Há um conceito muito interessante em linguística que ajuda a gente a compreender essas variações; chama-se pertinência: uma frase expressa a quantidade de detalhes ou elementos que participaram de um evento ou de uma situação, de acordo com a  avaliação da necessidade de informar a alguém aquilo que ocorreu. Aí, melhor do que falar que o verbo é ou não é transitivo, é falar que o evento é expresso com mais ou menos elementos. Talvez haja elementos necessários que sempre devem aparecer…. talvez.

Em tempo,  o último número da Revista Ciência Hoje, 46(275), traz uma entrevista com um dos mais interessantes linguistas que conheço; Leonard Talmy, da Universidade Estadual de Nova York; o link é: cienciahoje.uol.com.br/revista-ch/2010/275

Talmy é um dos pesquisadores que fala em verbos como expressão de eventos. O nêgo domina o tema.

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Sobre Pedro Perini-Santos

linguista.
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2 respostas para Sobre a definição dos verbos (5)

  1. Fidélis disse:

    Fala Pedro!
    Cara, tô impressionado com isso aqui! Quanto artigo interessante!
    Legal demais! Obrigado por dividi-los com a gente.
    Linkei o Gramaticalmente Crônico no Acaso Acontece.
    Abç
    Fidel

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