Ecologia de Inclusão

(Estado de Minas, o6/o8/2oo8)

A recente adesão do Brasil à Convenção Internacional sobre os Direitos de Pessoas com Deficiência é um fato histórico relevante. Uma vez signatário deste documento, o país ingressa em um grupo de países que assumem diante da ONU (Organização das Nações Unidas) o compromisso político de levar adiante práticas já em curso e desenvolver pesquisas, programas e políticas para tornar viável às pessoas que tenham alguma deficiência o exercício e o gozo do lazer, do trabalho, da família, da política e das individualidades de cada cidadão, sem discriminação de cor, credo ou corpo.

A expressão ‘ser deficiente’ permite interpretações da seguinte ordem: ‘João é deficiente’; ‘João tornou-se advogado’; ‘João é um deficiente advogado’. Se usarmos as formas ‘João tem uma deficiência’ e ‘João tornou-se advogado’; logo, ‘João é um advogado que tem uma deficiência’. A segunda formulação retira a deficiência como forma de identificação do sujeito, mas reconhece a sua particularidade. Que se trata de um fato biológico e social diferenciador, creio, não há dúvidas. Mas não pode ser o motivo de identificação do profissional, do pai, do filho ou do colega de escola. O ‘João’ deve ser avaliado e reconhecido como advogado, colega de trabalho, pai e filho; ou seja, como ‘o João’ que além desses atributos sociais e afetivos, também possui uma deficiência.

Há outra forma de fazer esta nomeação que me parece bastante interessante. A proposta que aqui apresento foi-me apresentada pela obra de John Perry e Elizabeth Macken, professores da Universidade de Stanford que se dedicam à conceituação e à produção de material de informática para a lida com pessoas, dizem eles, ‘com desabilidades’.

Inabilidade, deficiência e desabilidade são conceitos próximos, porém distintos. Compreender em que se assemelham e em que se diferenciam pode contribuir na elaboração de práticas sociais a serem planejadas no país.

Inabilidade é algo que alguém não pode fazer. Por exemplo, eu sou absolutamente inábil em esgrima, em falar russo, em consertar computadores ou em pilotar aviões. Temos mais inabilidades do que habilidades. Há algo de opcional nesta história: se eu tivesse optado em estudar russo e aviões, por exemplo, poderia ser hábil neste idioma e no manejo deste veículo, e assim por diante.

O conceito de deficiência tem duas entradas. Primeiro: uma pessoa que não enxerga tem a deficiência de não enxergar; uma pessoa cadeirante tem a deficiência de não andar. Mas ter tais deficiências não implica em não ler ou não se mover. Se hábil em Braille, um cego pode ler livros em Braille. Se dotado de uma cadeira de rodas e morar em uma cidade cuja programação urbanística é preparada para o trânsito de cadeiras de roda, esta pessoa torna-se hábil para se locomover autonomamente.

Por esse raciocínio, mais vale pensar em desabilidade. O conceito de desabilidade assume a dimensão social do convívio de pessoas com diferentes qualidades e possibilidades. Imaginemos que seja construída uma casa de dois andares, sendo que entre o 1º e o 2º pavimento não haja escada. Aí, somos todos desabilitados a subir para o andar de cima, salvo aqueles que tenham a destreza de fazer escaladas. A construção de uma escada ligado as duas partes da casa permite a mim e à maioria das pessoas subir pela escada. No entanto, cadeirantes e idosos com dificuldade de locomoção, por exemplo, continuam desabilitados a fazer o mesmo movimento. A substituição da escada por uma rampa com grau de inclinação coerente habilita a todos a subirem e a descerem de forma autônoma.

Este é um caso simples, mas que serve de exemplo para pensarmos que desabilidades são conceitos sociais, urbanísticos e comportamentais que envolvem a todos; sendo que, por ‘todos’, compreende-se todas as pessoas de um país que tenha, ou não, alguma deficiência

Farto material em Braille, constante presença de intérpretes de Libras (Língua Brasileira de Sinais), ações de engenharia, de arquitetura e de informática são alguns dos recursos que permitem alagar o número de pessoas autônomas.

A assinatura da Convenção Internacional sobre os Direitos de Pessoas com Deficiência é um compromisso nacional e um convite às instituições de pesquisa, de gestão ambiental e urbana, às escolas e às universidades, e a cada um de nós a pensarmos que todos temos desabilidades. O que deve ser feito é programar cidades, escolas, meios de comunicação, instituições públicas e grupos sociais versáteis, funcionais e aptos para o uso e desfrute de todas as pessoas, no sentido de se afirmar uma ecologia ambiental e comportamental de inclusão e valorização das diferenças.

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Sobre Pedro Perini-Santos

linguista.
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Uma resposta para Ecologia de Inclusão

  1. Beto Vianna disse:

    Oi, Pedrão, parabéns pelo blog. Viva a inclusão, inclusive a nossa!

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